Sexta-feira, 16 de Março de 2007

Meu Porto adormecido

    MEU PORTO ... ADORMECIDO

 

Sobram nas ruas desertas as vontades ansiosas

das carpideiras cobertas de lágrimas copiosas.

Andarilhos enrugados pernoitando sobre o chão

fazem sobrar um pregão inventam noites de anil,

contam-se já pelos mil os que passam sem descanso,

que o acaso acomodou nas soleiras mais sombrias,

as luzes cobrem sem ver que quem dorme apenas passa

a imagem da desgraça das almas de outras orgias.

Ondulantes seminuas as jovens meio arqueadas,

nem se percebem toldadas,avançam dobrando o riso

sem que p’ra tanto o juízo cedo as faça adormecer.

 

O Porto raia brincando lançando risos ao rio

e as gaivotas acordando a margem num assobio.

Abre a Ribeira com graça o peixe cheira a mercado

e as alminhas enceradas pela luz de algum pecado,

que ali em promessa alheia lembram ao Deus criador

palavras cheias de amor pedindo assim protecção...

E o Porto assim se espreguiça disfarçando a penedia

ocupada em cantaria sobrando em luto e em dor

Abrem-se as portas roncosas e às dobradiças já gastas 

junta-se a luta das tascas por um de três vaporoso...

e o Douro passa ansioso acordando para o mar

tal qual fazem os que passam da outra margem p’ra esta

limpando o suar à testa de tanto cavarem fundo

que as almas do outro mundo não querem aliviar.

Abrem casas de penhores e as mulheres alcoviteiras

sentam-se estendendo as seiras onde guardam seus valores...

que mais tarde se puderem e a vida assim as deixar

voltarão a resgatar...

 

No Bolhão o cheiro alho, a limão e a fava rica,

a sardinha de barrica e a polvo seco da porta;

são petiscos que emolduram as ruas pelas soleiras.

Enfeitadas as sopeiras p’ra soldados de Domingo

se apresentam mais coradas no casamento insistindo.

Nas suas cestas pequenas os galos picam à mesma

para lembrar a quaresma...

e o prato de frango assado, que de repolho enfeitado

vai cair pinga a pinguinha na gola toda bordada

da senhora arranjadinha.

 

No entanto o Porto é também berço de ralé...

do pinoca engalanado que leva todos no bico,

do aguadeiro que passa  deixando a sede em que fico.

Das margaridas aos molhos, das mulheres parindo amor,

das tecedeiras cansadas que descem todas as ruas

em bailados orquestrados com as bolsas quase nuas.

 

Os carrejões se acomodam p’ra resistir ao enguiço

de pegar outro serviço que os contratos já não pagam;

em estação barulhenta os comboios assobiam

as malas são vigiadas p’ra ver se não as desviam...

e as donas alvoraçadas de olho quase de esguelha

precipitam-se arqueadas, p’ras cestas todas tapadas,

todas rotas ... quase velhas.

 

O cauteleiro apregoa o bilhete premiado

na pirisca do cigarro para um canto amarrotado,

no seu boné sempre posto o engraxa já assobia,

olhando apenas o chão onde passa a freguesia.

O cura dos Congregados vem à porta e traz a luz...

pensam todos que cuidando apenas da moradia

estão sempre em primazia lá p’ros lados de Jesus.

 

O eléctrico chiando traz de pendura os ardinas,

distribuindo as notícias que comentam nas esquinas;

para raiva dos polícias que os pretendem parar

mas desviam a atenção nas crianças por calçar.

 

O Porto sobra sorrindo ... cada rua cada praça

fala da vida com traça...da pobreza bolorenta,

da atitude violenta dos que bufam nos cafés,

denunciando as ralés fazendo tostões do medo.

Aproximam-se à socapa roubam da boca o segredo

que salta de mão em mão, de quem apenas falava

da liberdade ansiada que nunca é consentida...

na memória dum país

dum Portugal algemado que nunca foi aprendiz.

 

E assim o Porto  adormece, para acordar novamente

na boca de toda a gente, na marmita já feita

da comida já desfeita com as sobras do jantar...

na mão do trabalhador, que gasta tempo e suor

p´ra suar sem melhoria.

 

Mas a longa penedia desce a encosta docemente,

veste a figura de gente dum Porto quase abastado

que no seu jeito cansado bate forte de emoção

permanecendo embalado

e tudo a bem da nação...

 

La salete........3 de Agosto 2003

 

 

 este meu poema dedico-o a todos os que amam o Porto ... mas acima de tudo a todos os que no Porto amaram... viveram e sofreram... e lutaram pela cidade e venceram

 

lasalete        

 

 

 
neste momento eu estou ...: grata à vida
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publicado por lapieta@sapo.pt às 11:57

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1 comentário:
De jorge aguiar a 17 de Março de 2007 às 16:45
(...) o peixe cheira a mercado (...)
As sensações são muitas vezes o que são .... porque nós estamos lá ... !
LINDO !!
Poema lindo de se ler e, possivelmente, ainda mais lindo de se escutar.

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