1 comentário:
De Fernando Correia a 19 de Março de 2007 às 21:56
Olá, hoje é dia do PAI, e eu gostaria de lhes passar este texto...que ouvi no “Coração da Cidade” pela voz daquela que é a “ALMA” daquela casa...

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Nós os velhos

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Nós...apenas nós e a contemplação da vida...

Quem somos? O que fizemos? O que desejamos? O que ainda podemos fazer?...

Ninguém sabe, mas o segredo permanece connosco,

Inteirinho...e adormece na esperança de que no dia seguinte,

Possamos acordar com alguém interessado em nós...

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Venho contar-vos um segredo...tenho medo de ser velho...tenho sim...

Medo que me digam que não presto, medo de olhar o espelho e começar a dar razão aos que o fazem...

Tenho medo de um dia acordar e não conseguir falar ou engolir...

Tenho medo que se esqueçam de mim numa urgência de hospital...

Tenho medo que me digam abertamente que sou louco imprestável...

Tenho medo que me digam que sou avarento, apenas porque não cedo os poucos tostões que me restam...

Tenho medo de ter medo...de não saber atravessar a rua em segurança...

Eu sei que já não corro como antigamente...

Tenho medo de ser assaltado e não me saber defender...

Tenho medo de ficar doente e não conseguir deslocar-me sozinho...

Tenho medo de escorregar na banheira, cair e ficar ali deitado...

Tenho medo de ter fome e de que os filhos não me digam; - vem a minha casa, tenho sempre jantar para ti...

Tenho medo de ficar só, sem carinho e sem companhia para adormecer...

Tenho medo de acordar ao lado da solidão...

Tenho medo de não resistir e ainda me apaixonar outra vez...

Tenho medo que me julguem louco...louco...apenas porque ainda sei amar...

Tenho medo de querer fazer amor...e não conseguir...

Tenho medo que tenham nojo de mim...que me rejeitem...que me ignorem...

Tenho tanto medo...

Mas do que eu tenho mais medo, é que os meus filhos deixem de me amar...

Que se esqueçam:

De todas as noites mal dormidas eu nunca amaldiçoei as horas...

Que muitas vezes deixei de me divertir por amor...

Que muitas vezes deixei de comprar algo para vestir porque primeiro estavam eles...

Que muitas vezes sorria e minha alma chorava por dentro em nome do meu amor...

Que deixei muitas vezes de passear para lhes comprar uns sapatos novos...

Que deixei de trocar de carro para que tivessem o que mais prazer lhes dava...

Que trabalhei muitas vezes sem poder e doente para que não lhes faltasse o suficiente para tratar a sua saúde...

Que muitas vezes deixei de fazer amor...fiquei com a alma amargurada...na esperança de que voltassem para casa sem um acidente...e a noite era longa demais...

Que muitas vezes adormeci a chorar para que não me vissem chorar de dia...

Que muitas vezes os vi crescer e senti saudades da minha juventude...

Que as palavras que me ferem, eu tento entendê-las como distracções...

Que sonho com os abraços deles e fecho os olhos ansiando por esse dia...

Tenho medo que os meus filhos não entendam e, um dia me atirem num espaço desconhecido e nem sequer se lamentem e voltem apenas para o meu funeral...

Mas sabem de que tenho mesmo mais medo? - é de não lhes dar um último abraço para poder repetir o quanto os amo de verdade e gritar que voltaria a repetir os mesmos gestos, a andar os mesmos passos apenas para os amar...

Mas, sou velho...ninguém entende a sério alguém como eu...

Ontem olhei o espelho...meu rosto estava ali...minha alma estava distante...

Então um anjo segredou...

-Não tenhas medo nem fiques triste...se Deus te permitiu seres velho é porque mereces, Ele quis que tu ficasses a contemplar a vida...

Aproveita esta idade porque ela te concede, a paciência, a experiência, a prudência, cultiva a serenidade e ama plenamente...

Se não puderes cantar faz poesia...

Se não puderes abraçar observa os pássaros em volta...

Se não puderes ser amado, ama apenas tu...

Mas ama plenamente até à eternidade



lasalete

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