a carta que nunca recebeu...
amigos...
sei que a esta hora do dia já muitos de vocês estão esgotados... eu ainda não...
ainda tenho pela frente uma longa jornada...
tão longa quanto a humanidade que me rodeia...
tenho uma porta aberta e um refeitório que serve alimento a todas as pessoas que ao longo do dia sentem fome...
o desespero de muitos tem que ser o meu desembaraço...
não tenho cartões de crédito para dar, mas ofereço sopa quente e pão com fartura, bolos e iogurte, a novos e velhos, crianças, doentes e tantos mais...
não os posso mandar para nenhum SPA, mas ofereço um cobertor que os abrigue do frio da noite gélida...
não tenho tempo para ir com eles ao cinema, mas sorrio, para que retenham na sua memória, o meu olhar...
não lhes peço um voto, não eu mesma estendo a minha mão, que eles seguram com firmeza...
não faço campanha eleitoral, mas eles me abraçam do fundo do coração, sem que eu lhes faça promessa alguma...
e tudo isto já faço vai para 16 anos... o tempo passa a correr...
um dia dei por mim a alimentar mais de mil pessoas por dia...
hoje são quase 500 pessoas a alimentar... todos os dias… chamam-lhes pessoas sem abrigo…todos os dias aumentam... todos os dias se vão ...
quando iniciamos o dia pela manhã, não sabemos quantos é que vêm comer, pedir ajuda, agasalho, calçado ou medicação...
a esta hora, os voluntários já estão um pouco cansados, pois que desde manhãzinha recolhem alimentação para podermos ofertar…
os voluntários todos os dias caminham em direcção á pobreza como caravelas, descobrindo novos mares de gente, novos sois, novas galáxias de sofrimento e dor…
e os monstros alados, continuam a empurrar o mundo para o desespero, desempregando, empobrecendo… só agora começamos a perceber, porque é que não cultivaram e educaram a maioria, porque é que não se investe na cultura… porque um homem sábio desperta com mais facilidade, reivindica e exige…
mas a cidade não dorme , tem borboletas quase moribundas de esperança, borboleteando dentro dela…
aos Sábados tratamos os pés... ás borboletas da cidade… aos que palmilham as ruas de pedra basáltica, que têm os pés doridos, feridos de não saber parar e de calcarem as pedras da indiferença humana ... ainda não disse ... estou a falar da cidade do Porto...
eu não sou ninguém com alguma importância... apenas uma mulher que um dia com uma magra pensão, abriu uma porta e nunca mais a fechou... chamou-lhe -O Coração da Cidade.. e este coração nunca mais parou de bater...não precisou de um monte de acções da bolsa, precisou apenas de dizer SIM, á vida…e outros corações fizeram eco com o seu, o amor falou mais alto e o coração se abriu…
hoje a crise também lhe bateu á porta... tinha fome... não a pude deixar á porta... só lhe pedi, que se sentasse, que não se alimentasse de nós e partisse, mas que não nos fechasse a porta...
então a crise disse:- para isso é necessário haver na cidade, mais gente com coração...
é por isso mesmo que estou a escrever para vocês...
será que quem me ler tem coração ?...
e espalha a minha mensagem aos quatro ventos pedindo ajuda para O Coração da Cidade?...
se assim for, fico-lhe grata... pode contactar-me ...
com carinho desejando que o Sol brilhe na sua vida
lasalete




