1 comentário:
De zélia neno a 26 de Abril de 2007 às 15:37
PARABÉNS por mais estes lindos poemas que falam de liberdade e daquele, já quase longínquo, dia 25 de Abril mas que se mantém bem guardado na minha memória.

Eram umas 8 horas da manhã e ia eu com uma amiga de tróleicarro, (para os que ainda se lembram desse transporte publico), a caminho do emprego, sito bem no centro da Baixa. Qual o nosso espanto ao passar pelo quartel junto ao Palácio de Cristal, (hoje, secção hospitalar do Sto António), e o mesmo estar barricado por grandes sacos de areia, como se via nos filmes, e os militares armados e em posições nada habituais no quotidiano de então.

Todos se interrogaram pela anormalidade da situação, já que àquela hora da manhã ainda nada se ouvira, e foi então que um habitual companheiro de viagem de origem alemã, nos informou que ouvira através da Rádio Moscovo, estação proibida de ser ouvida em Portugal, pelo que até se colocava um copo de água sobre o aparelho de rádio para a policia secreta não a detectar, de que estava em curso desde a madrugada um golpe de estado para acabar com a Ditadura e implantar a Democracia.

Um golpe de estado! Seria o mesmo que acontecera no Chile um ano antes e que fez jorrar tanto sangue? E Democracia, seria uma coisa boa ou má? Eu saíra há poucos anos do liceu e nem mesmo na disciplina de Politica Económica e Social que tivera no 7ºano, estas palavras tinham sido abordadas nas suas devidas definições.

E aquele dia foi-se passando com muito alarido nas ruas, muita incerteza e sobretudo comigo e meus pais vivendo grande angústia pois o meu irmão estava na Força Aérea em Paço d’Arcos e nada sabíamos dele, uma vez que as comunicações telefónicas eram praticamente impossíveis, mesmo estando eu nas instalações dos T.L.P. e as estações radiofónicas só transmitiam marchas militares, interrompidas só de quando em vez, para comunicar o ponto da situação entre os militares e os governantes de então.
O que daí em diante se foi passando já toda a gente o sabe, pelo menos os que disso se lembram.

Derrubou-se a ditadura em troca da liberdade de pensamento, de expressão e de acção. Ser livre é muito bom. Mas hoje, passadas mais de três décadas, interrogo-me se na realidade me considero uma pessoa livre…Posso levar meus pensamentos até onde quiser e falar deles com quem quiser, posso agir dentro de parâmetros socialmente correctos, posso sonhar sem que ninguém mo proíba e até posso mesmo voar numa asa delta ou outro engenho para sentir a liberdade de ver e sentir a terra sem ter nela os pés assentes. Mas não sou suficientemente livre para poder acabar com a injustiça social e a miséria humana.

Eu gostaria que a minha liberdade me permitisse colocar todas as crianças do meu país no seio de famílias amorosas, que as fizessem crescer sem traumas nem mazelas físicas; que os velhinhos do meu pais pudessem acabar os seus dias, não “enterrados” em camas ou sofás onde, por força das circunstâncias, se limitam a esperar pelo dia da partida mas sim rodeados de muito conforto e atenção por parte daqueles que eles muito amaram e até cuidaram, enquanto a sua vitalidade assim permitiu; e muito mais gostaria se a minha liberdade me permitisse andar por esta minha cidade e recolher todos os “pedaços” humanos que encontro arrolados em qualquer vau de escada ou pelos passeios, onde além de cartões e jornais só têm o céu como abrigo, e a todos oferecer um novo recomeço de vida.

Mas a liberdade de que disponho é condicionada a um todo que ainda se encontra distante de mim e de todos aqueles que ainda têm Fé e tentam fazer um mundo melhor. Se me fosse permitido acabar com o egoísmo, maldade e intransigência desta sociedade consumista em que vivemos, aí sim, eu me sentiria verdadeiramente livre.
Zélia

Comentar post