De Fernando Correia a 22 de Fevereiro de 2007 às 23:11
Boa noite, D. La Salete
A minha neta Mafalda está a contar uma parte da história da minha vida...
Partiu a dezoito de Agosto de 1967 no navio “Príncipe Perfeito” com destino a Lourenço Marques (hoje Maputo) aonde chegaria a três de Setembro...mas, antes disso esteve no Funchal e, adorou aquela terra...esteve lá um dia...
No dia seguinte, lá voltaram a partir com destino ao próximo porto, que neste caso era a cidade do Lobito em Angola. No barco, que era luxuoso e, onde iam alguns militares com as especialidades mais diversas e, que iam substituir companheiros que já tinham acabado as suas comissões de serviço, iam muitos civis, aliás era a maior parte. Havia uma orquestra, que tocava enquanto os civis iam divertindo-se, passando assim melhor o tempo em mar alto e, os militares iam também fruindo o espectáculo...Gostou imenso do Lobito, era uma cidade pequena, de ruas com muitas árvores, moradias de um piso, lindas, uma cidade onde devia ser muito agradável viver, tranquila e, aonde o terrorismo não havia chegado e, onde as pessoas viviam tranquilas certamente. Esteve lá um dia também, embarcando ao fim do dia com destino a Porto Alexandre, também em Angola, aí chegado, verdadeiramente é que começou a tomar consciência da mudança de cenário, pois, à espera do barco viam-se centenas de negros com um olhar, que na altura não se sabia se era de boas-vindas ou o que era, mas, infundia respeito, tanto mais que eram muitos e, ele nunca tinha visto tantos juntos. Lá desembarcou juntamente com os seus companheiros e, foram dar uma volta porque iam estar pouco tempo, com ele, ia um colega que ainda hoje, passados quase quarenta anos, é seu amigo e, com quem se encontra algumas vezes por ano, nos convívios militares; - Não há quase nada, ou mesmo nada, para dizer de Porto Alexandre, só recorda a expressão daquela multidão compacta negra, andrajosa e à espera de um milagre que as tirasse daquela pobreza. – Que ironia, um país cuja natureza brindou com bens a que o homem dá tanto valor, que lhes poderia dar bem-estar, vidas felizes; - tornou-os escravos na sua própria terra!
O porto de desembarque seguinte, foi Luanda. Que cidade tão bonita, - que maravilha de baía, as palmeiras que davam àquela margem, uma beleza que ele nem em sonhos poderia ver, com umas Avenidas idealizadas por alguém com uma visão de futuro, que segundo dizem, tem muito a ver com um governador que lá esteve e, que se chamava Norton de Matos.
Foi muito pouco o tempo que o meu avô lá esteve, mas foi o suficiente para fotografar com os olhos da alma, aquela cidade, capital de Angola.
Depois de mais alguns dias no mar, chegaram a uma cidade na África do Sul chamada Cape Town. Ele também ficou muito impressionado nessa terra, mas de uma forma contraditória; - por um lado, era magnífica a cidade, com prédios altíssimos; - ainda hoje recorda um centro comercial chamado OK, que tinha quarenta andares e, no piso ao nível da rua tinha uma avioneta em exposição; - por outro lado desagradou-lhe ver aquilo que se chamava “ apartheid ”, que era uma forma de separarem os negros dos brancos; fosse nos transportes, nas escolas, edifícios públicos e, até lhe chegaram a dizer para não frequentar certas ruas, pois eram destinadas a negros...
Quando ele foi para Moçambique, o seu destino era Lourenço Marques, mas, passado mais ou menos um mês, recebeu ordens para ir para o quartel-general de Nampula, que ficava no Norte daquela província. Teve de se conformar, aliás, ele aceita com resignação o que a vida lhe vai dando, seja bom ou seja mau; tem o espírito de que aquilo que parece mau, pode até ser bom... nunca se sabe...

A história da sua estada em Moçambique é muito longa, não cabe aqui...
Resta dizer porém, que o meu avô não compreende como é que os povos de África, não têm direito a ser felizes...
Eu, e a minha netinha gostámos muito da sua história...de vida
Bem-haja
Fernando Correia
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