rezar ... para que continuem firmes as correntes...

nem sempre sabemos porque rezamos...
a infantilidade dos nossos gestos interiores, remam por vezes de forma declarada para rumos que mais tarde nos poderemos arrepender...
hoje falamos muito de ditadura...
falamos muito à vontade de liberdade...
mas, em 1961 seria impossível falar de liberdade e muito menos de ditadura, porque tudo isso seria um insulto e o fim não seria o melhor...
na sequência de algo que ontem mesmo aqui coloquei, das memórias que tenho do convento onde vivi... hoje mesmo de manhã ao consultar as efemérides deste dia, a rir me lembrei do dia em que pela manhãzinha fomos levadas com rapidez para a igreja do convento e ainda estremunhadas de terço na mão, rezávamos em cora com todas as religiosas presentes, pelo Sr. , presidente da república e pelo Sr. , Dr. Oliveira Salazar...
à misturas com as avé marias a madre que presidia às orações nos ia informando que os assaltantes iriam para o fogo do inferno e por isso pedia a Deus misericórdia para eles...
ninguém sabia de que se falava efectivamente e o conhecimento político era nulo, só sabíamos que alguém estava a colocar a nação em risco...
as orações foram realizadas ao longo de todo o dia e as freiras sucediam-se umas às outras em adoração contínua ao Santíssimo...
as alunas mais velhas vertiam sentidas lágrimas e eu lembro-me de me juntar a elas para tentar entender porque é que choravam tanto, mas também não sabiam responder... o colégio vivia uma histeria colectiva...
nesse dia nem lanche tivemos... o pânico instalou-se... fomos visitados pela polícia local, o padre vinha com eles e o telefone não parava de tocar...
não podíamos , rir nem brincar... somente devíamos rezar para que Deus castigasse os maus que tinham desviado o navio...
logo que o navio voltou para as mãos dos dominadores o colégio explodiu em vivas e agradecimentos a Deus...
já passaram 46 anos... a história distanciou o acontecimento, mas não limpou da memória as imagens quase irreais que mexeram coma nossa emoção...
hoje ainda continuo a rezar pela libertação do nosso povo,
mas hoje eu sei calcular o peso e o preço da liberdade...
hoje, não consinto que me contem histórias e sei que quem governa tem nas suas costas um fardo muito pesado e nem sempre consegue corresponder aos anseios da maioria...
a simplicidade daqueles tempos e a pouca cultura que todos possuíamos , mostrava um mundo muito diferente ... e, de tal forma estava ostracizada a nossa comunicação com o exterior que Portugal parecia estar a ser atacado por extraterrestres...
hoje Portugal está aberto ao exterior, mas vinculado a ideias pouco progressistas...
nas escolas já não estão expostos símbolos religiosos, mas a falta de educação alastrou e a violência crescer de forma assustadora...
perto da cruz que simbolizava o sacrifício de Jesus, propositadamente exposto se encontrava sempre o rosto de quem governava e sabíamos de cor as fisionomias dos ditadores... hoje, não temos retratos que assustam as paredes das escolas, mas somos confrontados com atitudes sem retrato e muito pessoais que nos afectam a todos...
hoje, rezo pelos que nos governam, para que todos os dias de manhã despertem com vontade de ajudar o país e com discernimento para o fazer...
rezo para que a injustiça social não continue e minar a esperança de um povo que está triste, miserável e cada vez mais distante dos seus direitos e dos seus deveres...
quase paralítico nos seus ideais...
todos os dias rezo, para que Deus nos coloque à frente do destino desta amada nação um homem forte, humano, sabedor de todas as coisas e acima de tudo honesto ...
e que cumpra aquilo que promete, quando necessitando de votos para ganhar, diz cumprir tudo quando for eleito...
rezo e muito, por um mundo melhor, mais justo e sem algemas para ninguém...
rezo, para que todos os paquetes do mundo se façam ao largo e gritem,
...SANTA LIBERDADE...
lasalete ...



